Sunday, June 28, 2009

Poema da Semana

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Falem
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Falem sempre que quiserem em poder.
Mas nunca digam como o poder é poderoso,
Como tem poder. Ninguém toleraria.
E os primeiros, já os vi, serão os submissos.
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Falem sempre que quiserem em amor.
Mas nunca passem da insinuação.
Não se afastem dos rótulos,
Não descrevam as delícias.
Os que mais se ruborizarão
Encontrá-los-eis entre os amorosos.
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Falem sempre que quiserem em metafísica.
Chamem nomes ao sobrenatural,
Digam que percebem
O que quer dizer Deus e o Diabo
E a Essência.
Mas nunca sejam sinceros
A ponto de confessar
Que há coisas sem palavras
Para as designar ou descrever.
Os padres, alguns filósofos,
Queimar-vos-ão, como antigamente.
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É muito melhor assim,
Protestar contra um poder abstracto
Como se as abstracções
nos coagissem a mudar de caminho.
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Assim,
Escrever longos romances sobre o amor,
Que vendem bem por não falarem
Do melhor do amor.
Livros onde se lê:
“E então ele abraçou-a.
No dia seguinte acordou cedo,
Com o braço dela sobre o seu peito.”
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Melhor assim.
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Dizer que há desconhecidos que se revelam
E continuam desconhecidos.
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Dizer que há misteriosos superiores
Na burocracia de existirmos
Sufocados por leis,
Como se o Direito
não tivesse sido inventado pelo homem,
Como se o papel e a tinta
Fossem nossos trisavós.
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Dizer que há desconhecidos que se revelam
E continuam desconhecidos.
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E que isto é assim porque é.
Que não se compreenderá nunca,
Como se não houvesse uma dialéctica
E uma definição científica
De recalcamento.
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- Eduardo Saraiva, 13 de Abril de 1979.
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