Monday, November 3, 2008

Poema do Dia


O Afilhado


O meu afilhado epiléptico veio ver-me,

Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de controle e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Mas deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...

O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de coiro para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.
E ganhas...? – lhe pergunto.
Vinte paus, meu Padrinho,
E não posso beber vinho.
Nem um copinho,
Meu Padrinho!

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas – mudemos de assunto.

-Vitorino Nemésio

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